Secretaria Municipal da Saúde · Educação Permanente

Tratamento de feridas: do tecido à evolução de enfermagem

Anatomia e fisiologia da pele, cicatrização, avaliação, coberturas padronizadas no município, Polos de Curativos, encaminhamentos e Sistematização da Assistência de Enfermagem.

120 mincarga horária
42 slides6 partes
3pausas para pensar
Enfermeirosatenção básica
Abertura

O que você leva daqui — e quanto tempo temos

Reconhecer o normal

Camadas da pele, funções e o que o leito da ferida está mostrando.

Classificar a ferida

Aguda ou crônica, etiologia, estágio, tecido e exsudato.

Escolher a cobertura

Entre os produtos padronizados na SMS-SP, o que responde ao problema daquela ferida.

Encaminhar e registrar

UBS ou Polo, referência e contrarreferência, evolução que o próximo plantão usa.

Mapa do encontro

22'  Fundamentos

14'  Cicatrização

12'  Avaliação

16'  Tratamento

22'  Coberturas

10'  Polos

14'  SAE

6'  Fechamento

Combinados

  • 3 pausas para pensar — não é prova, é para errar aqui e não no paciente
  • Traga um caso real — localização, medida, tecido, exsudato e pele ao redor
  • Pergunte a qualquer momento — o material fica disponível depois
Parte 1

Fundamentos: a pele e a ferida

Camadas e funçõesA pele é um órgão, não uma embalagem. Cada camada perdida muda a conduta.
Umidade, pH e temperaturaO leito tem uma faixa de trabalho. Tudo que o curativo faz é tentar mantê-la.
Classificar para tratarEtiologia, profundidade, tecido e exsudato definem o que fazer.
01
Fundamentos

O maior órgão do corpo — e três camadas com funções distintas

2 m²
de superfície em um adulto
2 mm
de espessura média, variando por região
15 %
do peso corporal total

Epiderme — 1ª camada

Principalmente queratinócitos, que impermeabilizam a pele. Em constante renovação: as células mais antigas são substituídas em média a cada 12 dias.

Derme — 2ª camada

Tecido conjuntivo com cerca de 70% de colágeno, glicoproteínas e fibras elásticas, que dão flexibilidade e resistência. Onde estão vasos e nervos.

Hipoderme — 3ª camada

Tela subcutânea de tecido frouxo rico em células adiposas. Conecta derme e fáscia muscular, é reserva energética e isolante térmico.

Somam-se os anexos — pelos, unhas, glândulas sudoríparas e sebáceas — formando o sistema tegumentar. É esse conjunto que uma ferida rompe.
Fundamentos

O que se perde quando a pele se rompe

Proteção

Barreira contra agentes químicos, físicos e biológicos.

Sem ela: contaminação direta e risco de infecção.

Percepção

Recebe estímulos sensoriais: tato, dor, temperatura.

Sem ela: perda de sensibilidade protetora — origem do pé diabético.

Termorregulação

Regula a temperatura por vasodilatação e sudorese.

Sem ela: ferida extensa perde calor — hipotermia no queimado e no idoso.

Resistência e elasticidade

Força mecânica e capacidade de regeneração.

Sem ela: cicatriz menos elástica, com contratura e retração.

Balanço hídrico

Resiste à perda de água e eletrólitos.

Sem ela: queimadura extensa perde volume — repõe-se líquido, não só curativo.

Metabolismo

Produção de vitamina D; secreção e excreção.

Sem ela: acamado e sem sol acumulam deficiência de vitamina D.

Imunorregulação

Participa da resposta imune local e sistêmica.

Sem ela: ferida crônica inflama o corpo todo e piora a comorbidade.

Reserva de nutrientes

Armazena lipídios, água e vitaminas.

Sem ela: o desnutrido não tem substrato para cicatrizar.

Espelho do corpo

Reflete alterações sistêmicas: icterícia, anemia, desidratação.

Na prática: a pele mostra a doença antes do exame.

Uma ferida extensa não é só uma solução de continuidade: é perda de barreira, de calor, de água e de imunidade local ao mesmo tempo.
Fundamentos

A ferida tem uma temperatura e um pH de trabalho

pH

Pele íntegra: cerca de 5,5 em mulheres e 5 em homens.

Leito da ferida: 5,8 a 6,6 — levemente ácido, condição para que as funções celulares ocorram adequadamente.

Secreções, urina, fezes e alguns antissépticos alteram esse pH.

Temperatura

Faixa ideal: 36,4 °C a 37,2 °C.

É nessa faixa que ocorrem metabolismo, síntese de proteínas, fagocitose e mitose.

Variações prejudicam ou interrompem o processo celular.

Abrir a ferida e deixá-la secando ao ar derruba a temperatura local e atrasa a cicatrização. Exposição mínima, limpeza rápida, cobertura imediata.
Pare e pense · 1 Por que sabão tensoativo e antisséptico não são rotina na limpeza de uma ferida aberta?
Porque têm ação citolítica. Afetam a permeabilidade da membrana celular e, quanto maior a concentração, maior a citotoxicidade — o que atrasa a cicatrização. Além disso, em contato com secreções da ferida, a ação do produto fica comprometida. A rotina é soro fisiológico 0,9%; o antisséptico entra apenas após avaliação criteriosa, em situações definidas.
Fundamentos

A primeira pergunta não é qual curativo — é qual a causa

Ferida é qualquer lesão que interrompa a continuidade da pele.

Aguda

Ruptura da vascularização com hemostasia imediata. Segue a sequência esperada de reparo.

Crônica

Desvio na sequência do processo. Se não fecha em 3 semanas após a ruptura da pele, entra nessa categoria.

A contração das margens começa em 5 dias e tem pico em 2 semanas. É por isso que se reavalia em duas semanas, não em dois meses.

Cirúrgicas

Incisivas: perda mínima de tecido. Excisivas: remoção de áreas de pele.

Traumáticas

Mecânicos (prego, espinho, pancada) · Físicos (temperatura, pressão, eletricidade) · Químicos (ácidos, soda) · Biológicos (animais, parasitas).

Ulcerativas — a doença de base manda

Pressão · neuropatia diabética · insuficiência venosa · arterial · queimadura (calor, frio, químico, elétrico, radiação).

Sem tratar a causa, nenhuma cobertura funciona. Pressão, isquemia, estase e neuropatia não se resolvem com produto.
Fundamentos

Contaminação não é infecção — e isso muda a conduta

ClassificaçãoO que significa
LimpaLesão feita em condições assépticas, isenta de microrganismos.
Limpa contaminadaLesão com menos de 6 horas entre o trauma e o atendimento.
ContaminadaMais de 6 horas entre trauma e atendimento, com contaminantes presentes, sem processo infeccioso local.
ColonizadaPresença e proliferação de microrganismos, sem provocar reação no hospedeiro.
Criticamente colonizadaPopulação microbiana estabelecida, ferida que não cicatriza: o organismo não consegue controlar os microrganismos.
InfectadaBactérias invadem o tecido sadio e desencadeiam resposta imunológica do hospedeiro.
A infecção é incomum em lesões de estágio I e II. A avaliação de infecção se concentra nos estágios III e IV.
O controle da colonização depende de limpeza adequada, técnica asséptica na troca e curativos que façam barreira.
Fundamentos

Profundidade: quanto de pele foi perdida

Estágio I

Pele avermelhada, não rompida. Mácula eritematosa bem delimitada, atingindo epiderme.

Estágio II

Pequenas erosões na epiderme ou ulcerações na derme. Apresenta-se como abrasão ou bolha.

Estágio III

Afeta derme e tecido subcutâneo. Pode haver descolamento de bordos.

Estágio IV

Perda total da pele, atingindo músculos, tendões e exposição óssea.

Erro 1: chamar de estágio I o eritema que branqueia à digitopressão. Estágio I é o eritema não branqueável em pele íntegra.
Erro 2: estadiar ferida coberta por necrose. Sem ver o leito, a classificação é “sem estágio” até desbridar.
Erro 3: chamar de IV sem estrutura exposta. Estágio IV exige músculo, tendão ou osso visível.
Lesão por pressão é estágio; úlcera de pé diabético é grau. Não misture os vocabulários no prontuário.
Fundamentos

Morfologia: localização, dimensão, número e profundidade

Localização — áreas de risco

Quem passa muito tempo sentado: tuberosidades isquiáticas, pés, espinha dorsal torácica, calcanhares.

Quem passa muito tempo acamado: região sacrococcígea, trocantérica, isquiática e espinha ilíaca, joelhos, cotovelos, tornozelos, região occipital e orelhas.

Dimensões em área (cm²)

Pequena: menor que 50  ·  Média: 50 a 150
Grande: 150 a 250  ·  Extensa: maior que 250

Número: mais de uma ferida no mesmo membro ou área, com distância mínima de 2 cm entre elas — faça a somatória.

Feridas profundas: envolvem tecidos moles profundos, como músculos e fáscia.
Feridas cavitárias: perda de tecido com formação de cavidade, envolvendo órgãos ou espaços. Podem ser traumáticas, infecciosas, por pressão ou pós-cirúrgicas.

Para comparar

Medida padronizada permite dizer se melhorou, piorou ou está inalterada — em cm² e em percentual.

Para comunicar

O colega do próximo plantão entende a mesma ferida sem precisar olhar.

Para dimensionar

O tamanho define a quantidade de cobertura, a frequência de troca e o custo do material.

Fundamentos

O que está no leito decide a conduta — e o exsudato diz como

Tecidos viáveis — proteger

Granulação: vermelho vivo, brilhante, úmido, ricamente vascularizado.

Epitelização: revestimento novo, rosado e frágil.

Tecidos inviáveis — remover

Necrose de coagulação (escara): crosta preta e/ou bem escura, seca, firmemente aderida.

Necrose de liquefação: amarelo-esverdeado, amolecido, comum com infecção e secreção purulenta.

Esfacelo/fibrina: amarelo ou branco, adere ao leito em cordões ou crostas; pode ser mucinoso.

Exsudato

Seroso: muito líquido, baixo conteúdo proteico.

Sanguinolento: ruptura de vasos ou hemácias.

Purulento: rico em células e detritos; bactérias piogênicas produzem supuração.

Odor: bactérias e tecidos em decomposição.

AspectoNecrose secaNecrose úmida escuraNecrose úmida claraGranulação
CorNegra ou marrom escuraEsfacelo amarronzado ou amarelo escuroEsfacelo fibroso amarelado ou cinzaVermelho
UmidadeSecaAmolecido / encharcadoMacio / fibrosoPouco a moderadamente úmido
AderênciaFirmemente aderido na base e bordasAderido apenas na baseFrouxamente aderido—
Parte 2

O processo de cicatrização

Três fases, não uma filaInflamação, proliferação e maturação se sobrepõem na mesma lesão.
O que atrasaLocais, sistêmicos e — o que é nosso — tratamento tópico inadequado.
Nutrição é substratoSem proteína e micronutrientes, a ferida não tem com o que cicatrizar.
02
Cicatrização

Três fases que se sobrepõem — e três caminhos para fechar

1 · Inflamatória / hemostasia

Vasoconstrição, coágulo e chegada de células de defesa. Sinais: dor, calor, rubor e edema. Função: limpar o leito.

2 · Proliferativa

Tecido róseo, mole e granular na superfície em 3 a 4 dias. Inclui granulação, angiogênese e reepitelização.

3 · Maturação / remodelagem

Acúmulo de colágeno, contração e clareamento. A cicatriz madura se forma de 3 semanas a 1 ano ou mais.

1ª intenção

Bordas aproximadas, cicatriz mínima. Feridas cirúrgicas e queimaduras de 1º grau. Fecham em 4 a 14 dias.

2ª intenção

Houve perda de tecido; bordas não aproximáveis. Cicatriza de dentro para fora: mais lenta, cicatriz maior, mais complicações.

3ª intenção

Mantida aberta intencionalmente para reduzir edema ou infecção, ou permitir drenagem. Ex.: ferida cirúrgica infectada com dreno.

O tecido cicatricial será sempre menos elástico que a pele ao redor. Isso é permanente e entra na orientação ao usuário.
Cicatrização

O que atrasa a cicatrização — e quando o processo falha

Fatores locais

  • Infecção bacteriana local
  • Edema e grau de contaminação
  • Presença de secreções
  • Corpo estranho, hematoma, necrose
  • Ambiente seco e trauma

Fatores sistêmicos

  • Estado nutricional e hipoalbuminemia
  • Diabetes mellitus e anemia
  • Idade avançada
  • Imunossupressão, quimioterapia, corticoides
  • Hipóxia tecidual

Tratamento tópico inadequado

Sabão tensoativo em lesão aberta tem ação citolítica. Antissépticos também: quanto maior a concentração, maior a citotoxicidade.

Gaze seca e manipulação excessiva removem tecido novo.

É o único grupo que a enfermagem controla inteiramente.

Complicações da cicatrização

Hemorragia interna (hematoma) ou externa · deiscência, mais comum entre o 3º e o 11º dia · evisceração (emergência) · infecção, que pode gerar celulite, osteomielite, bacteremia e sepse · fístula · cavitação e tunelização, que escondem exsudato e favorecem abscesso.

O que favorece

Leito úmido e limpo · perfusão adequada · controle de infecção · nutrição com proteína e micronutrientes · alívio de pressão e cisalhamento · adesão ao plano de troca.

Nenhum desses é opcional: são as condições do processo.

Sinais sistêmicos em idoso podem ser atípicos: confusão, delírio e anorexia antes de qualquer febre. Desconfie.
Cicatrização

Nutrição é substrato, não coadjuvante

Estágio da lesãoProteínasLíquidosCalorias
Pele intacta (cuidados preventivos)0,8 – 1,0 g/kg30 ml/kg/dia30 kcal/kg/dia
LPP estágio I e II · lacerações, abrasões · lesões isquêmicas1,2 – 1,5 g/kg35 ml/kg/dia35 kcal/kg/dia
LPP estágio III e IV1,5 – 2,0 g/kg35 – 40 ml/kg/dia40 kcal/kg/dia
LPP estágio IV · queimadurasAté 3,0 g/kg40 ml/kg/dia40 ou mais kcal/kg/dia
Feridas múltiplas que não cicatrizam · hipoalbuminemia · lesões venosas e LPP II múltiplas2,0 – 3,0 g/kg40 ml/kg/dia35 – 40 kcal/kg/dia

Suplemento hiperproteico

Pó com no mínimo 20 g de proteína por dose, com vitaminas A, C, D, E, K, B12, selênio, zinco, arginina e colágeno hidrolisado. Sachê de 25 ou 30 g = 200 ml.

Indicação

Adultos a partir de 19 anos com lesões de várias etiologias, inclusive pré-operatório de cirurgias de grande porte.

Contraindicado em gestantes, lactentes e crianças.

Dose e retirada

Estágio I e II: 1 a 2 unidades/dia. Estágio III e IV: 2 a 3 unidades/dia.

Retirada mensal no Polo de Curativo, mediante impresso de dispensação preenchido, cartão do SUS e documento com foto.

Parte 3

Avaliação e tratamento

Oito itens obrigatóriosSe a evolução tem os oito, o próximo plantão consegue decidir.
Ambiente úmidoO princípio que orienta qualquer escolha de cobertura.
Desbridar é decisãoMétodo, perfusão e dor — nessa ordem.
03
Avaliação

Oito itens que não podem faltar — e o contexto do usuário

1 · Localização, tamanho e estágio

Comprimento, largura, profundidade, forma e bordas.

2 · Área perilesional

Dentro de 4 cm: edema, eritema, dor, maceração, erupção, bordas ressecadas, corpos estranhos.

3 · Tecido do leito

Granulação, epitelização, necrose de liquefação, escara, esfacelo.

4 · Túneis e descolamentos

Passagem sob a pele que cria espaço morto com potencial de abscesso.

5 · Exsudato

Quantidade, cor e tipo.

6 · Odor

Presente ou ausente; se presente, descrever.

7 · Dor

Em repouso e na troca do curativo.

8 · Pele ao redor

Íntegra, ressecada, macerada, com dermatite.

Some as condições gerais: comorbidades, estado nutricional, mobilidade, onde permanece a maior parte do tempo e condições da casa.
“Ferida limpa, sem alterações” não é avaliação: é ausência de avaliação.
Avaliação

Como medir, como resumir em três cores

Medida simples

Régua em centímetros: maior comprimento e maior largura, perpendiculares. Resultado em cm².

Sempre na mesma posição e com o mesmo método, para permitir comparação.

Medida cavitária

Após a limpeza, preencher a cavidade com SF 0,9%, aspirar com seringa estéril e ler o volume em mililitros.

Alternativa: introduzir espátula ou seringa estéril e marcar a profundidade.

R · Vermelho — proteger

Granulação e novo epitélio. Ambiente úmido, proteção dos tecidos, prevenção de infecção.

Y · Amarelo — limpar

Esfacelo e necrose de liquefação. Remover tecido inviável: a colonização favorece a infecção.

B · Preto — desbridar

Escara espessa. Remover necrose, respeitando perfusão e estabilidade da escara.

Não medir sobre a crosta: a necrose esconde a área real do leito.
Não usar fita mole nem medir em ângulo: régua rígida, eixos perpendiculares.
Não registrar sem data: medida sem referência não mostra evolução.
Pare e pense · 2 A ferida está com a mesma medida há 10 dias. Trocar o curativo por um mais caro resolve?
Não necessariamente. Ferida sem evolução no leito em 10 dias é classificada como inalterada. O primeiro passo é reavaliar a causa (pressão, isquemia, infecção, umidade) e a técnica. Se não cicatrizar em 2 semanas, considere excesso de colonização e reavalie a seleção do curativo. Trocar produto sem mudar o que causa a estagnação só muda o custo.
Tratamento

Nove critérios, um princípio

Os 9 critérios do tratamento

1. Avaliar — avaliação, fase da cicatrização e objetivo do tratamento.

2. Limpar — reduzir contaminantes sem causar dano adicional.

3. Remover necrose — desbridamento no método adequado ao caso.

4. Tratar infecção — local ou sistêmica, com cultura quando indicado.

5. Preencher o espaço morto — cavidade, túnel e descolamento, sem tamponar em excesso.

6. Gerenciar o exsudato — absorver o excesso, hidratar a ferida seca.

7. Manter ambiente úmido — o princípio que orienta todo o cuidado.

8. Isolar termicamente — preservar a faixa de 36,4 a 37,2 °C.

9. Proteger a ferida — barreira contra contaminação e trauma mecânico.

A ordem importa: cobertura é a última decisão, não a primeira.

O princípio que orienta tudo

A ferida não precisa secar para cicatrizar. Precisa de umidade equilibrada.

Protege terminações nervosas — menos dor na troca e em repouso.

Acelera a cicatrização — favorece migração celular e granulação.

Previne desidratação e morte celular — evita a crosta que esconde o leito.

Promove necrólise e fibrinólise — desbridamento autolítico natural.

O oposto também é erro: excesso de exsudato macera a pele ao redor e aumenta a área da ferida. Umidade é equilíbrio, não encharcamento.
Tratamento

Limpeza: pressão certa, produto certo, gesto certo

Soro fisiológico 0,9%

Cloreto de sódio 9 mg/ml. É a escolha de rotina para limpeza.

Irrigar com seringa de 20 ml e agulha 40x12: a pressão é adequada para limpar a superfície sem traumatizar o leito.

PHMB 0,2% — solução

Polihexametileno biguanida. Para feridas potencialmente infectadas ou criticamente colonizadas.

Recomendado em diabéticos e imunossuprimidos. Cobrir o leito com gaze e umedecê-la, respeitando o tempo do fabricante.

Não esfregue. Movimentos suaves, do local mais limpo para o mais contaminado.
Remova o curativo com cuidado para não lesar tecido novo; SF ajuda a soltar.
Seque a região perilesional e aplique a cobertura imediatamente.
O uso de soluções antissépticas deve ocorrer somente após criteriosa avaliação. Não é rotina.

Sequência da troca — o que a técnica precisa garantir

1. Reunir material, conferir validade e integridade.

2. Remover o curativo antigo e desprezar a pinça usada.

3. Limpar do mais limpo para o mais contaminado.

4. Secar a pele perilesional e aplicar a cobertura.

5. Desprezar o descartável no lixo hospitalar.

6. Deixar pinças e materiais permanentes 30 min em solução desinfetante.

7. Lavar as mãos e fazer o registro do procedimento.

8. Orientar usuário e família conforme a necessidade.

Tratamento

Desbridamento: escolher o método, não o mais rápido

MétodoComo funcionaQuando indicar
Cortante conservadorTesoura, lâmina de bisturi e outros materiais cortantes. Realizado por médico ou enfermeiro capacitado.Grande quantidade de tecido ou urgência; remover o máximo de tecido necrótico possível.
CirúrgicoIncisões em tecidos vivos, em centro cirúrgico ou ambiente controlado.Necrose extensa, infecção relacionada à úlcera, necessidade de drenagem.
MecânicoCurativos úmidos a secos, fricção, irrigação, hidroterapia.Excesso de tecido necrótico com secreção mínima. Exige técnica e material adequados.
Enzimático-químicoEnzimas aplicadas topicamente, que digerem apenas o tecido necrótico.Quando não há urgência de drenagem. Seguir o fabricante; interromper quando o leito estiver limpo.
AutolíticoO corpo usa as próprias enzimas, com ambiente úmido mantido por hidrogel e curativos hidratantes.Mais lento, indolor e de fácil realização. Não é a melhor opção se a ferida estiver infectada.
Não desbridar necrose estável, dura e seca em membros isquêmicos. Avaliar perfusão antes; avaliação vascular completa em úlceras de extremidades inferiores.
Controle a dor. O desbridamento pode ser doloroso — isso não é motivo para não fazê-lo, é motivo para planejá-lo.
Tratamento

Proteger o que ainda está inteiro

Pele ao redor da lesão

Aplicar protetor cutâneo na área circundante. O cuidado reduz maceração, mantém a pele seca e facilita a aderência do curativo.

Spray barreira: ao borrifar, proteger o leito da ferida para o produto não cair dentro.

Creme barreira: em áreas de risco de maceração, como região da fralda em pacientes com incontinência.

Prevenção de lesão por pressão

  • Placas de espuma em proeminências ósseas, nos pacientes de risco
  • Reduzir áreas de pressão: colchão caixa de ovo ou de ar
  • Mudanças de decúbito frequentes
  • Coxins e travesseiros para amenizar áreas de pressão
  • Panturrilhas e tornozelos apoiados, com calcanhar livre
  • Higiene íntima e corporal quando necessário
  • Promover hidratação da pele
Nunca massagear proeminências ósseas e áreas de pressão: o tecido já está isquêmico, e a massagem acrescenta cisalhamento.
Tratamento

Úlcera venosa: tratar a estase, não só a ferida

O que é

Lesão por estase venosa: o sangue não retorna das pernas ao coração adequadamente, por varizes de longa data ou após trombose.

Fatores de risco: diabetes, hipertensão, obesidade, trauma, tabagismo, sexo feminino, gestações e uso de contraceptivo.

Tratamento

Tratar a estase venosa com repouso e terapia compressiva.

Terapia tópica que mantenha o leito úmido e limpo, absorvendo o exsudato.

Controle de infecção com antibiótico sistêmico quando indicado e prevenção de recidivas.

A regra que evita amputação

Aferir o ITB antes de comprimir. Não usar compressão com ITB abaixo de 0,8 — risco de necrose do membro.

Bota de Unna contraindicada em úlcera arterial e mista, ITB 0,7–0,8, celulite, TVP, suspeita de infecção e ausência de sensibilidade.

Bota de Unna: bandagem com pasta de óxido de zinco, glicerina, petrolato, acácia e óleo de rícino. Troca a cada 7 dias. Prescrição médica.
K2: sistema multicomponente de duas bandagens, pressão terapêutica de 40 mmHg. Prescrição médica.
Parte 4

Coberturas padronizadas na rede

Escolha pela situaçãoTecido, infecção, exsudato, dor, odor e profundidade — não pela marca.
Padronização é logísticaRessuprimento mensal, aprovação do gerente, tabela de códigos SUPRI.
Três regras de segurançaNada de alginato em ferida seca; antimicrobiano não substitui antibiótico.
04
Coberturas

Como a padronização funciona na rede

O fluxo do insumo

  • Produtos selecionados para contemplar todas as fases do tratamento.
  • Envio conforme demanda local e características dos pacientes da unidade.
  • Pedido aprovado pelo gerente e/ou responsável pelo tratamento de feridas da unidade.
  • Liberação pelo ressuprimento mensal do CS ao Setor de Recursos de Materiais.
  • Inclusão de novos usuários condicionada à avaliação da equipe.
  • Cobertura fora do mensal: solicitação extraordinária, incluída no próximo pedido.

Tabela completa com códigos SUPRI

bit.ly/tabela-codigoSUPRI

Arquivo de consulta, atualizado constantemente. Não pode ser editado. Serve para facilitar os pedidos.

O que a padronização não faz

Ela não escolhe por você. Dois produtos padronizados podem ser inadequados para a mesma ferida — e um deles pode piorar a lesão.

Produto fora da lista não entra pelo fluxo normal. A padronização existe para garantir previsibilidade e segurança, não para limitar o cuidado.

1 · Avaliar

Qual é o tecido, o exsudato, a dor e a profundidade? A categoria do produto sai daí.

2 · Escolher a categoria

Antimicrobiano, absorvente, hidratante, protetor ou tecnologia — conforme a tabela por situação clínica.

3 · Conferir o código

Buscar o produto na tabela SUPRI antes de montar o pedido, para não trocar nome ou apresentação.

Coberturas

Escolha pela situação clínica, não pela marca

SituaçãoCuidado localConsideraçãoIndicação genérica
Tipo de tecido
granulação, fibrina, secreção, escara
Otimizar o leito: proteger granulação, remover necroseBaseada no tipo de tecido. Curativos que promovem desbridamento autolítico quando há tecido necrótico.Hidrogel, hidrofibras, espumas com ou sem silicone
Inflamação e infecção
localizada, difusa, sistêmica
Providenciar controle bacterianoFerida infectada requer antimicrobiano oral ou IV. Não usar curativo oclusivo em lesão infectada.Antimicrobianas com prata, PHMB 0,2%, Hycos MG500
Exsudação
nula, baixa, média, intensa
Equilibrar a umidade: adicionar ou removerFerida seca pede curativo que aumente umidade. Exsudação pede absorção e proteção da pele perilesional.Hidrogel, alginato de cálcio, hidrofibra, espumas
Dor
na troca ou contínua
Controle da dorO curativo não deve ser aderente. Depende do tipo de dor.Membrana de celulose, espumas com silicone
OdorReduzir o odorOdor pode ser causado por infecção: certifique a causa antes de escolher.Curativos com prata ou PHMB 0,2%
Profundidade
cavidade, descolamento, túnel, fístula
Ocupar espaços mortosPreencher, não tamponar. Evitar produtos que deixem resíduos. Tamponamento pode causar necrose.Alginato, alginato com prata, hidrofibra ou hidrofibra com prata
Ferida inalterada
sem evolução em 10 dias
Estimular tecido viávelLeito deve estar livre de necrose, biofilme ou infecção. Observar etnia e doenças crônicas.Reavaliar antes de trocar produto
Coberturas

Antimicrobianos, absorventes e preenchedores

Antimicrobianos

Curativos de vários tipos e formatos — hidrofibra, espumas, camadas de contato — impregnados com prata, DACC ou PHMB.

Produtos: Aquacel Extra Ag · Sorbion Durafiber Ag · Aquacel Ag Foam · Aquacel Ag Foam Silicone · Mepilex Ag · Mepilex Ag Transfer · Acticoat Flex · Urgo Tul Ag · Urgo Clean · Hydroclean Plus · Exufiber Ag · Compressa Cutimed Sorbact · PHMB solução e gel.

Não substitui antibiótico sistêmico em infecção de tecidos profundos. Contraindicado em hipersensibilidade à prata ou ao PHMB. Reavaliar regularmente.

Alginato de cálcio e hidrofibra

Alginato: placas e fitas de fibras de alginato de cálcio e sódio, de algas marinhas. Exsudato moderado a intenso; efeito hemostático; requer curativo secundário.

Hidrofibra: carboximetilcelulose de sódio que vira gel ao contato com umidade e estimula desbridamento autolítico. Moderada a alta absorção.

Nunca em feridas secas.

Espumas — com ou sem silicone

Espuma de poliuretano hidrofílico, multicamadas, absorvente, com superfície semipermeável.

A camada de silicone não adere ao leito: minimiza trauma, dor e maceração. Exsudato moderado a intenso; feridas traumáticas e dolorosas; adaptam-se aos contornos.

Produtos: Mepilex e variações, Allevyn, Aquacel Foam, Cutimed Sorbact.

Coberturas

Hidratar, proteger e não aderir

Hidrogel com alginato — Saf-Gel

Gel de alginato de cálcio, sódio e carboximetilcelulose sódica, tubo de 85 g.

Promove desbridamento autolítico e hidratação de feridas secas. Requer curativo secundário; troca pelo menos a cada 3 dias.

Não usar em feridas com grande exsudação.

PHMB gel

Gel com propriedades hidratantes e antimicrobianas: reidrata tecidos, cria ambiente úmido, facilita o desbridamento autolítico e controla carga bacteriana.

Requer curativo secundário. Proteger os bordos para evitar maceração. Troca a cada 24 horas ou conforme o fabricante.

Membrana de celulose — Membracel

Membrana de celulose bacteriana, com poros, em placas. Estímulo à granulação, redução da dor, auto-aderente e de baixa aderência ao leito.

Indicada para escoriações, skin tears, lacerações, queimaduras de 1º e 2º grau, traumas e lesões vasculogênicas. Pode permanecer até 12 dias, conforme a exsudação.

Hidrocoloide extra fino

Curativo hidrocoloide extra fino e transparente.

Indicado para fixação de prong nasal em neonatologia.

Não confundir com o hidrocoloide de espessura média usado para absorção.

Coberturas

Cremes, protetores e barreiras — nomes parecidos, funções diferentes

ProdutoO que éPara que serve
MG 500
creme reestruturante
Frasco 150 ml. Creme reestruturante para limpeza de feridas e estímulo à granulação.Úlceras vasculogênicas, lesão por pressão, queimaduras, pé diabético. Requer curativo secundário; aplicação diária.
Debriderm
creme debridante
Frasco 100 ml, creme spray com bioativos naturais.Limpeza do leito com ação debridante, antimicrobiana e antifúngica. Lesões com tecido inviável e biofilme.
Dérmico
para queimadura
Frasco 150 ml, creme com bioativos naturais e extrato glicólico de Aloe Vera.Queimaduras: limpeza de crostas, alívio da dor e estímulo à granulação.
HI
hidratante
Frasco 250 ml, creme com extrato glicólico de cana de açúcar.Hidratação de peles ressecadas e descamativas em pacientes desidratados e acamados.
HD
hidratante protetor
Frasco 120 g, creme com bioativos nanovetorizados.Membros inferiores de pacientes diabéticos.
EB Reparador HycosFrasco 250 ml/g, creme com bioativos naturais.Epidermólise bolhosa e lesões crônicas de difícil resolução. Também hidrata pele íntegra.
Sulfadiazina de prata 10 mg/gCreme, tubo de 400 g.Queimaduras.
Spray barreira
Vuelo Pharma 28 ml
Protetor cutâneo em spray. Não causa ardor, não contém corante nem conservante.Área peri-lesão, peri-gastrostomia, peri-ileostomia, prevenção de dermatite associada à incontinência.
Dermamon
creme barreira
Protetor cutâneo em creme.Prevenção de dermatite associada à incontinência.
Coberturas

Tecnologias que exigem protocolo próprio

Terapia por pressão negativa

Kit de espuma de poliuretano poroso, equipamento de vácuo e coletor. Aplica pressão negativa localizada, remove secreção, reduz edema e estimula granulação.

Versões hospitalar e ambulatorial: KCI (VAC) e Carilex VT One.

Não usar com fístula não explorada, tecido necrosado, osteomielite não tratada, malignidade, nem sobre vasos ou órgãos expostos.

Matriz dérmica

Nevelia: matriz de regeneração dérmica, dupla camada com colágeno bovino e silicone. Perdas teciduais extensas. Prescrita e manipulada por médico, em ambiente hospitalar.

Flowable: matriz dispersível/injetável, colágeno bovino granulado com glicosaminoglicano. Preenche cavidades: LPP, úlceras cavitárias, pé diabético, trauma com exposição óssea e úlceras venosas.

Ondas de pressão acústica focalizada

Dermapace: equipamento que estimula perfusão vascular e vascularização tecidual.

Usado com capa protetora com sachê em gel estéril, para melhor condução das ondas.

Compressão, fixação e estomia

Bota de Unna (Skinage, Flexi Dress) e K2 multicamadas — prescrição médica.

Rede tubular: fixação de curativos e compressas, sem costuras, reutilizável; escolher conforme tamanho e localização.

Gelificador Vuelo: cápsula que gelifica 100 ml de efluentes em bolsas de estomia.

Coberturas

Curativo ideal por estágio da lesão

EstágioObjetivo do tratamentoExsudatoCurativo indicado
Estágio I
eritema não branqueável, pele intacta
Remover a causa; proteger a área e evitar pioraSem exsudatoProtetores cutâneos, creme barreira, filmes transparentes, Hycos MG 500, Hycos HI
Estágio II
perda de epiderme e/ou derme; lesão rasa, bolha ou ruptura
Tratamento por meio úmido, mantendo o equilíbrio da umidadeZero a escassoEspumas com silicone para cobertura atraumática, membrana de celulose, tules não aderentes, hidrogel, Hycos MG500
Estágio III
espessura total no subcutâneo, pode haver descolamento
Manter úmido com equilíbrio de umidade OU limpar, desbridar, absorver exsudato e preencher espaço morto. Gerenciar o equilíbrio bacteriano.Média a intensaAbsorventes de baixa a moderada exsudação; hidrofibras e espumas para moderada a intensa; alta absorção com base de prata (Ag)
Estágio IV
perda total com necrose, músculo, osso ou estrutura de sustentação
Desbridar tecidos não viáveis e estabilizar tecidos viáveis. Desbridamento só se houver circulação adequada.VariávelDesbridamento autolítico, mecânico e enzimático; hidrofibras e espumas com prata
Sem estágio
lesão completamente coberta por necrose
Expor o leito para poder avaliarVariávelDepende do tecido encontrado após o desbridamento
Todas as feridas crônicas estão contaminadas, mas nem todas estão infectadas. Infecção é entumecimento, eritema, febre, odor, edema e dor.
Parte 5

Polos e encaminhamentos

Dois caminhosCurativo simples na UBS. Média e alta complexidade no Polo.
Quem é o especialistaEstomaterapeuta ou dermatoterapeuta — não é cargo, é qualificação.
ContrarreferênciaSem ela, o cuidado recomeça do zero e a ferida também.
05
Polos

Fluxograma de feridas: dois caminhos

Curativo simples — UBS

Baixa complexidade

  • Enfermeiro: avaliar e prescrever
  • Técnico/auxiliar de enfermagem: executar
  • Orientar usuário e família
  • Registrar os dados no prontuário
  • Consulta e avaliação médica se necessário

Curativo complexo — Polo

Média e alta complexidade

  • Consulta de enfermagem
  • Usuário assina termo de compromisso
  • Anamnese completa
  • Enfermeiro especialista avalia, prescreve, executa e registra
  • Se necessário: ambulatório de dermatologia ou vascular

Quem é o enfermeiro do Polo

Estomaterapeuta ou dermatoterapeuta: conhecimento, treinamento específico e habilidade para feridas, incontinências e estomas. Não é cargo, é qualificação — e o enfermeiro da UBS também avalia e prescreve.

O papel dele vai além do curativo

Plano de cuidado personalizado · educar paciente e família · manter o estoma · prevenir e reabilitar · apoio psicológico · adaptação às mudanças no corpo · escolha de produtos · ensinar técnicas de manutenção.

Tecidos viáveis: granulação e epitelização — proteger.
Feridas cirúrgicas: após 24 horas, manter abertas conforme avaliação.
Tecidos inviáveis: necrose e esfacelos — Polo.
Polos

Quando encaminhar ao Polo — e quando chamar o médico

Critérios de complexidade

  • Feridas com tecido inviável: necrose, escara, esfacelo extenso
  • Lesão por pressão III ou IV, com cavitação
  • Tunelização ou tratos sinusais
  • Necrose extensa que não pode ser removida por outros métodos
  • Pé diabético e úlceras neuropáticas
  • Úlcera venosa com indicação de terapia compressiva
  • Ferida sem evolução apesar do tratamento adequado
  • Necessidade de tecnologia avançada: pressão negativa, matriz dérmica
  • Suspeita de infecção que exige cultura e avaliação médica
  • Feridas múltiplas ou extensas com indicação de suplemento

Encaminhe também ao médico

Suspeita de infecção local: solicitar cultura com antibiograma e iniciar antibiótico sistêmico após a coleta.

Sinais sistêmicos: febre, mal-estar, aumento de linfonodos, celulite, fasceíte, osteomielite, sepse.

Em idosos: confusão, delírio e anorexia podem ser o primeiro sinal.

O que não é do Polo

Curativo simples de ferida cirúrgica limpa, escoriação e queimadura de 1º grau sem complicação — resolvidos na UBS.

Prioridade: encaminhamento de especialista para nutricionista deve ser agendado como vaga zero.

Polos

Referência e contrarreferência: o mesmo impresso, ida e volta

Na ida — o que o impresso precisa ter

  • Unidade solicitante e carimbo
  • Unidade de referência, endereço, telefone e ponto de referência
  • Serviço, especialidade ou programa
  • Identificação do usuário e número de registro
  • Hipótese diagnóstica e diagnóstico
  • Motivo do encaminhamento
  • Exames e procedimentos realizados
  • Assinatura e carimbo do profissional responsável

Na volta — o que precisa retornar

  • Relatório da consulta
  • Procedimentos a serem adotados na unidade de origem
  • Assinatura e carimbo do profissional que atendeu
  • Data de agendamento e retorno
A contrarreferência garante continuidade. Sem ela, o cuidado recomeça do zero — e a ferida também.
Registro: acompanhar a evolução da lesão no prontuário e no SIGA feridas, de forma estabelecida.
Prioridade: encaminhamento de estomaterapeuta ou dermatologista para nutricionista é agendado como vaga zero.
Parte 6

Sistematização da Enfermagem

Método, não papeladaCinco etapas, e a ferida atravessa todas elas.
Amparo legalCOFEN 567/2018: o que é seu, o que se delega, o que não é seu.
Evolução que serveOito campos. Se o próximo plantão não decide, está incompleta.
06
SAE

SAE: cinco etapas, e a ferida passa por todas

#Etapa do Processo de EnfermagemOnde a ferida entra
1Coleta de dados (histórico / avaliação)Anamnese, exame físico e avaliação da ferida: localização, medida, tecido, exsudato, odor, dor, pele perilesional, comorbidades, mobilidade e nutrição.
2Diagnóstico de enfermagemEx.: integridade tissular prejudicada; risco de infecção; dor aguda; mobilidade prejudicada; déficit de autocuidado.
3Planejamento (resultados e prescrição)Objetivo do tratamento, escolha da cobertura, frequência de troca, metas mensuráveis e quem executa o quê.
4ImplementaçãoLimpeza, desbridamento, aplicação da cobertura, proteção da pele, orientação ao usuário e à família.
5Avaliação de enfermagemA evolução: comparar com a avaliação anterior e decidir se mantém, ajusta ou encaminha.
Base legal: Resolução COFEN nº 358/2009 — SAE e implementação do Processo de Enfermagem.
Sem a etapa 1, a prescrição vira chute. Sem a etapa 5, ninguém sabe se funcionou.
Registro é parte do processo, não burocracia posterior.

Onde quebra 1

Prescrição copiada do plantão anterior, sem nova avaliação. A ferida mudou e o plano não.

Onde quebra 2

Evolução sem medida e sem comparação: ninguém consegue dizer se o tratamento está funcionando.

Onde quebra 3

Plano sem responsável e sem prazo de reavaliação. Fica combinado no ar.

SAE

O que é do enfermeiro — e onde termina a competência

Competências — COFEN nº 567/2018

  • Avaliar, prescrever e executar curativos em todos os tipos de feridas
  • Coordenar e supervisionar a equipe na prevenção e cuidado
  • Prescrever medicamentos e coberturas previstos em protocolo
  • Executar desbridamento autolítico, instrumental, mecânico e enzimático
  • Realizar terapia de compressão elástica e inelástica (diagnóstico médico)
  • Avaliar estado nutricional por IMC e indicadores
  • Realizar coleta de material para exame microbiológico
  • Realizar foto documentação com autorização formal
  • Solicitar parecer das Comissões de Curativos
  • Fazer referência e garantir a contrarreferência
  • Registrar todas as ações no prontuário
Delegação: o enfermeiro pode delegar ao técnico os curativos, respeitando competência, risco e complexidade. Mas delegação não transfere a responsabilidade pela avaliação e pela prescrição.
O técnico registra as características da ferida, os procedimentos executados e as queixas — e comunica as intercorrências ao enfermeiro.

Desbridamento cirúrgico

É ato médico. O enfermeiro realiza o cortante conservador, quando capacitado.

Terapia compressiva

Executada pelo enfermeiro conforme diagnóstico médico de úlcera venosa, mista ou linfedema.

Antibiótico sistêmico

Prescrição médica. A cultura orienta o tratamento e deve ser colhida antes, quando possível.

Pressão negativa e matriz dérmica

Exigem capacitação e solicitação especial com relatório médico, fotos e previsão de quantidade.

Reconhecer o limite não é fragilidade técnica: é segurança para o usuário e respaldo legal para o profissional.
Pare e pense · 3 Paciente com ITB 0,6 e escara preta, seca e estável no calcanhar. Desbridar?
Não. Escara seca, dura e estável em membro isquêmico não deve ser desbridada — ela funciona como cobertura natural. O desbridamento só deve ser feito quando houver perfusão adequada, e a avaliação vascular completa precede qualquer desbridamento em extremidades inferiores. Conduta: manter, proteger, documentar e encaminhar para avaliação vascular. Diante de eritema, sensibilidade, edema ou drenagem ao redor, aí sim é urgência.
SAE

Evolução de enfermagem: oito campos, sem exceção

O que registrar

  • Data e hora da troca e do registro
  • Localização e dimensões — comprimento × largura × profundidade, em cm
  • Leito da ferida — tecido predominante e percentual aproximado
  • Exsudato — quantidade, tipo e cor
  • Odor e dor — presentes ou ausentes, e intensidade
  • Pele perilesional — íntegra, macerada, ressecada, com eritema
  • Cobertura utilizada e frequência de troca prescrita
  • Conduta e orientações — o que foi feito, orientado e combinado

A regra de ouro

Se o próximo profissional não consegue decidir o que fazer só com a sua evolução, ela está incompleta.

Comparação é obrigatória

Descrever sem comparar com a avaliação anterior não mostra evolução. Diga se melhorou, piorou ou está inalterada — e desde quando.

Intercorrências

Comunicar ao enfermeiro: mudança de aspecto, aumento de dor, novo odor, sangramento, sinais de infecção.

O que não escrever

“Ferida em bom estado” · “sem alterações” · “curativo realizado” · “paciente orientada” — nenhuma dessas frases permite decidir a próxima conduta.

SAE

Duas evoluções, mesma ferida

Não serve

Ferida limpa, sem alterações. Realizado curativo. Orientada paciente.

  • Não diz qual ferida
  • Não diz o tamanho
  • Não diz o tecido
  • Não diz qual cobertura
  • Não permite comparar

Serve

12/03/2026 09:20 — LPP sacrococcígea, 4,0 × 3,0 × 0,5 cm. Leito com 80% de tecido de granulação e 20% de esfacelo aderido em borda inferior. Exsudato serossanguinolento, moderado, sem odor. Pele perilesional íntegra, com hiperemia em região de apoio. Dor 3/10 na troca. Realizada limpeza com SF 0,9% sob irrigação e desbridamento autolítico com hidrogel; aplicada hidrofibra e espuma com silicone. Mantida troca a cada 3 dias. Orientados mudança de decúbito a cada 2h e uso de coxins. Redução de 18% da área em relação a 05/03.

Manter

Leito com 80% de granulação e área reduzindo: a cobertura atual está funcionando. Mantém e reavalia em 3 dias.

Ajustar

Os 20% de esfacelo na borda inferior pedem atenção: manter o desbridamento autolítico e reavaliar a troca.

Encaminhar

Se a redução parar por duas avaliações seguidas, considerar Polo e avaliar causa, pressão e colonização.

A segunda evolução tem dado, conduta e comparação. É ela que sustenta a decisão do próximo plantão e o faturamento do procedimento.
Fechamento

Dez mensagens para segunda-feira

1. Antes do curativo, pergunte a causa. Sem tratar a causa, nenhuma cobertura funciona.
2. Contaminada não é infectada. Colonizada não é infectada.
3. Ferida seca pede umidade. Ferida encharcada pede absorção e proteção da pele.
4. Escara seca e estável em membro isquêmico não se desbrida.
5. Sem ITB, não se comprime perna.
6. Mantenha o leito úmido e a pele ao redor seca.
7. Ferida sem evolução em 10 dias é inalterada: reavalie antes de trocar o produto.
8. Curativo antimicrobiano não substitui antibiótico sistêmico.
9. Se não está registrado, não foi feito — e ninguém consegue continuar.
10. Referência sem contrarreferência é usuário perdido.

Checklist de bolso — quatro perguntas antes de abrir o curativo

1. Qual é a causa desta ferida — e o que mudou desde a última troca?

2. O leito está limpo, úmido e aquecido?

3. A cobertura que está aí está funcionando? Há quanto tempo?

4. O que eu preciso registrar para o próximo plantão decidir?

Leve impresso: a tabela de coberturas por situação clínica e por estágio.
Leve impresso: o fluxograma UBS × Polo e os critérios de encaminhamento.
Leve impresso: o modelo de evolução com os oito campos.
Traga um caso real: localização, medida, tecido, exsudato e pele ao redor. Decidimos juntos a conduta e o encaminhamento.
Obrigado

Perguntas, casos e dúvidas de plantão

Traga um caso real: descreva localização, medida, tecido, exsudato e pele ao redor — e decidimos juntos a conduta e o encaminhamento.

ReferênciasManual de Padronização de Curativos — SMS-SP, 2024
Guia de Orientação e Técnica de Curativos — SMS-SP, 2024
Protocolo de suplemento nutricional hiperproteico — SMS-SP, 2023
Resoluções COFEN nº 358/2009 e nº 567/2018
ContatoComissão Especial de Análise, Padronização e Controle de Curativos Médicos em Geral — CPCM/SMS-SP
Rua Dr. Siqueira Campos, 176 — 5º andar — Liberdade
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